14.3.13

.É assim o amor...



Passa as tardes ali, escondido na floresta, a vigiar a casa…

Os olhos febris colam-se à janela, cujas persianas, como pálpebras pesadas, perpetuam o silêncio…

Há muito que ninguém ali vive, mas o amor é assim: louco, frequentemente desvairado, reinventa-se, consome-se e renova-se, continuamente…

António Pereira

3.3.13

.O despertar do lilás!



Como um cristo na cruz, o lilás ganha forças e renova-se por dentro…
Em breve, as suas flores renascerão em cachos perfumados, fazendo felizes os meus olhos emocionados…
A redenção do inverno, longo e frio, está assegurada!
 
 
António Pereira
 

 

27.2.13

.A acácia espera, desesperada…

 


Desesperada, a acácia ergue os dedos frios para o céu.

Impacienta-se quando alguma ave de passagem a usa como poleiro…

Inveja as folhagens perenes do pinheiro e do mióporo que a ladeiam.

O ressentimento que a consome é tão intenso que não consegue fruir, antecipadamente, o milagre que a primavera não tardará a trazer-lhe: um manto de folhas tenras bordado a flores de ouro!

 

António Pereira

26.2.13

.A primeira flor…



Do topo do mais alto ramo, o pessegueiro ergue, como um facho, a sua primeira flor…
O azul sem fim ilumina-se para ser o palco onde ela, frágil mas decidida, será a primeira a receber a primavera…
Escondido, observo-a e murmuro, muito baixinho: “Força, amiga! Que o fruto dos teus sonhos cresça feliz!”

António Pereira


22.2.13

.Um cogumelo no prado!

 
O pequeno esporo caiu desamparado (e muito assustado!) na orla da floresta. A terra fértil deu-lhe aconchego; o sol aqueceu-o como um pai extremoso; a chuva encorajou-o a sair da terra com confiança.
Tanto mimo não foi em vão: pôs os olhos no horizonte e cresceu, cresceu, cresceu…
Alheio à efemeridade da sua condição, forte e belo, o cogumelo assume-se como o rei do prado!
 
 
António Pereira

 


21.2.13

.Uma mulher na floresta...



Procurando uma e outra sobreviver aos desafios que a existência impõe, impiedosa, as suas vidas ligaram-se numa simbiose sem retorno. A mulher entrou na floresta e, num instantâneo que os meus dedos trémulos provocaram, ali ficou, em suspenso no tempo, cercada de flores esvoaçantes como borboletas amarelas...
 
 
Olhei para a câmara e, comovido, vi uma pintura de Monet…

António Pereira

20.2.13

.Os sonhos vêm e vão...



A confiança e o vigor que a juventude dá alimentam o sonho secreto do espargo. A vastidão do prado não lhe chega. A abundante luz solar a enchê-lo de matéria orgânica e a acentuar o verde-escuro das vestes também não. A verdadeira adrenalina vem-lhe do desejo incontrolável de chegar um dia ao céu…

Afasto-me, antecipando o inevitável: em breve, sem dar por isso, o rebento tenro desmultiplicar-se-á em espinhos duros como a vida e dependerá, para sempre, das raízes mergulhadas no solo profundo e cada vez mais distantes do azul infinito…

António Pereira