28.3.13

.Esgota-se o tempo...

Ilha da Armona - Olhão, sul de Portugal (março 2013)
 

De costas viradas para o mar,
o barco afunda a seu desalento na areia…
As ondas agitam-se em murmúrios que não ouve…
Os peixes passam, velozes, indiferentes à sua solidão…
Numa clepsidra invisível, o seu tempo esgota-se...

Triste, olho-o uma última vez e afasto-me sem dizer nada…

 

António Pereira

22.3.13

.Quando vier a primavera… (Fernando Pessoa)

Foto tirada hoje no sul de Portugal

Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.


Fernando Pessoa (heterónimo Alberto Caeiro) 1915
 
 
Ouça o poema dito (magnificamente!) por Pedro Lamares:

16.3.13

.Sonho de um caracol...



Mal cai a noite, desliza, silenciosamente, pelo empedrado de mármore...

O candeeiro, preso para sempre na sua imobilidade, ilumina-lhe o caminho…

Intimamente, alvoroça-se e inveja o sonho que insufla a alma do decidido gastrópode: descobrir o mundo que há para além do muro que cerca o jardim…

 

António Pereira

14.3.13

.É assim o amor...



Passa as tardes ali, escondido na floresta, a vigiar a casa…

Os olhos febris colam-se à janela, cujas persianas, como pálpebras pesadas, perpetuam o silêncio…

Há muito que ninguém ali vive, mas o amor é assim: louco, frequentemente desvairado, reinventa-se, consome-se e renova-se, continuamente…

António Pereira

3.3.13

.O despertar do lilás!



Como um cristo na cruz, o lilás ganha forças e renova-se por dentro…
Em breve, as suas flores renascerão em cachos perfumados, fazendo felizes os meus olhos emocionados…
A redenção do inverno, longo e frio, está assegurada!
 
 
António Pereira
 

 

27.2.13

.A acácia espera, desesperada…

 


Desesperada, a acácia ergue os dedos frios para o céu.

Impacienta-se quando alguma ave de passagem a usa como poleiro…

Inveja as folhagens perenes do pinheiro e do mióporo que a ladeiam.

O ressentimento que a consome é tão intenso que não consegue fruir, antecipadamente, o milagre que a primavera não tardará a trazer-lhe: um manto de folhas tenras bordado a flores de ouro!

 

António Pereira

26.2.13

.A primeira flor…



Do topo do mais alto ramo, o pessegueiro ergue, como um facho, a sua primeira flor…
O azul sem fim ilumina-se para ser o palco onde ela, frágil mas decidida, será a primeira a receber a primavera…
Escondido, observo-a e murmuro, muito baixinho: “Força, amiga! Que o fruto dos teus sonhos cresça feliz!”

António Pereira